Dignidade sempre, também nas imagens

Imagina a seguinte situação:
- apanhas uma gripe terrível (daquelas que te arrumam a um canto e te transformam numa bola ranhosa e despenteada, incapaz de te mexer para tomar banho, vestir ou sequer para assoar o nariz).

 
- no momento em que estás mais frágil e em desespero total, entre uma equipa médica pelo teu quarto a dentro, devidamente acompanhados por um batalhão de jornalistas (com equipa de filmagens e meia dúzia de fotógrafos com as máquinas a disparar como se fosses uma super-estrela).

 

- depois recebes tratamento, a gripe desaparece e até dás uma entrevista brilhante aos jornalistas. Agradeces aos médicos e a todos os que vieram em teu auxílio.

 

- no dia seguinte descobres fotografias tuas na internet, reportagens nos jornais e na televisão e a única coisa que mostram é a tua imagem despenteada, de pijama vestido e com ranho a escorrer pelo nariz.

 

Ficarias feliz ao saber que a imagem de um momento menos bom da tua vida estava imortalizada na TV, nos jornais, na internet e sabe-se lá mais onde?


Cumprimentarias os jornalistas pelo bom trabalho que tinham feito ao espalhar a tua cara (ranhosa e despenteada) pelo mundo?

 

Pois! Nós também não! Agora lembra-te estamos a falar só de uma gripe… Se estivéssemos a falar de uma situação mais grave (do tipo de situações que os ODM abordam) a imagem seria ainda pior.

Todos nós sabemos que há quem procure imagens chocantes para ilustrar as suas notícias. Mas nós, Organizações Não Governamentais e sociedade civil em geral (sim, estou-te a incluir a ti que estás a participar no Curtas), não temos como objectivo vender, o nosso objectivo é mudar o mundo e construir uma sociedade mais justa. Por isso temos que pensar não só nas mensagens que queremos transmitir, mas também na forma como as passamos.

 

Ao longo dos anos, as ONG têm pensado e discutido muito sobre este assunto e até existe um Código de Conduta sobre utilização de imagens (podes encontrar o documento AQUI).

Vê o trabalho da Oikos, por exemplo, estamos presentes no terreno em momentos críticos e em situações de emergência (Haiti, Moçambique, etc.) mas mesmo no meio de catástrofes humanitárias de grandes dimensões, procuramos mostrar imagens que preservem a dignidade das pessoas (naquele que, provavelmente, será um dos piores momentos da sua vida).

 

Para sensibilizar não é preciso chocar, para informar não é preciso dar espectáculo, para explicar não é preciso estereotipar.

 

Pensem nisto quando estiverem a fazer os vossos vídeos.

publicado por Oikos às 11:09 | link do post | comentar